excertos QI

Herói - em Vida, ironia e Deus

Greta Livraria |  17 de fevereiro de 2022

* Os excertos aqui publicados fazem parte de uma parceria entre a QI News e a Greta Livraria, um espaço online destinado a publicações produzidas por mulheres.

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A poesia de Anne Carson tem sido caracterizada pelos críticos como ‘ensaios’, ‘pequenas palestras’ ou ‘narrativas em verso’ numa voz singular.

Com o livro VIDRO, IRONIA E DEUS a autora entretece diversos fios poéticos, antigos e contemporâneos, num conjunto de seis textos: cinco longos poemas e um ensaio final em prosa.

Vidro, Ironia e Deus

Anne Carson

Tradução de Tatiana Faia

Não edições, 2021

 

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Livro disponível em Greta Livraria

Herói, excerto 
Por  Anne Carson

Consigo dizer pelo modo como a minha mãe mastiga a torrada

se ela teve uma noite boa

e está prestes a dizer algo feliz

ou não.

 

Não.

Põe a torrada de lado no prato.

Sabes que podes correr as cortinas nesse quarto, começa ela.

 

Esta é uma referência codificada a uma de nossas discussões mais antigas, da série a que chamo As Regras da Vida.

A minha mãe fecha sempre as cortinas bem fechadas à noite antes de

            se deitar.

 

Eu abro as minhas tanto quanto possível.

Gosto de ver tudo, digo.

O que há para ver?

Lua. Ar. Nascer do sol.

Essa luz toda na cara de manhã. Acorda-te.

Gosto de acordar.

 

Neste ponto a discussão das cortinas atinge o seu delta

e pode avançar por uma de três vias

Há a via do Tu Precisas e de Uma Boa Noite de Sono,

 

a via da Teimosa Como o Teu Pai

e a via aleatória.

Mais torrada. Entrecorto forçosamente, empurrando para trás a minha cadeira.

 

Aquelas mulheres! diz a minha mãe com um aclarar de garganta exagerado.

A mãe escolheu a via aleatória.

Mulheres?

 

A queixarem-se de violação o tempo todo —

Vejo que bate com um dedo furioso no jornal de ontem

que está ao lado do doce de uva. 

 

A primeira página tem uma pequena peça

Sobre uma manifestação do Dia Internacional da Mulher —

já viste o catálogo de verão da Sears?

 

Nope.

Mas que é uma desgraça! Aqueles fatos-de-banho —

cavados até aqui! (aponta) Não admira!

 

Estás a dizer que as mulheres merecem ser violadas

porque os fatos-de-banho dos anúncios da Sears

são abertos muito acima das pernas? Mãe estás a gozar?

Bom alguém tem de assumir a responsabilidade.

Porque deviam as mulheres ser responsáveis pelo desejo masculino?

         A minha voz está alta.

Vejo que és uma Delas.

 

Uma de Quem? A minha voz está muito alta. A mãe ignora.

E o que fizeste com aquele fatinho-de-banho que tinhas o ano passado o verde?

Assentava-te tão bem.

 

O frágil facto de que a minha mãe tem medo

cai-me em cima vindo de uma grande altura.

Este Verão faz oitenta anos.

(…)