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DE QUE FORMA O APOIO FAMILIAR E SOCIAL FACILITA A ADAPTAÇÃO À REFORMA

Ana Basílio dos Santos | 29 Novembro 2019

Dissertação:

A transição da vida activa para a reforma

Autor:

Ana Filipa Cruz da Silva Basílio dos Santos

Orientada por:

Stella Margarida de Oliveira António Bettencourt da Câmara

Área e sub-área:

Gerontologia social

Publicada em:

2018 no ISCSP da UL

Link para o original:

https://www.repository.utl.pt/handle/10400.5/16705

 

A investigação responde a que perguntas?

A procura crescente por um maior conhecimento sobre o envelhecimento e sobre as implicações sociais, económicas, humanas e de saúde devem-se não só às alterações e projeções demográficas, mas também à nova visão sobre esta fase do ciclo de vida onde predominam pessoas mais velhas, mais capacitadas e ativas. É fundamental conhecer e compreender as circunstâncias e fatores que de alguma forma influenciam o modo como o indivíduo envelhece e como se adapta às diferentes fases do ciclo de vida. A passagem à reforma, estereotipadamente, demarca uma fase de rutura com o “papel de ativo na sociedade” e o “início do envelhecimento”, tornando necessária uma redefinição da identidade pessoal. Mas reforma e velhice não são sinónimos, apesar de se cruzarem ao longo do ciclo de vida, e é por essa razão que se torna essencial estudar este fenómeno que ocorre durante a passagem para a velhice e descodificá-lo. É neste sentido que surge a pergunta de partida desta investigação - Como foi vivenciada a transição da vida ativa para a reforma?-  tendo em conta as vivências do “antes, durante e após” a passagem para a reforma por indivíduos reformados.

 

Qual a metodologia adoptada?

 

Esta investigação desenvolve-se através de uma pesquisa qualitativa com o intuito de estudar e conhecer as histórias de vida de indivíduos já reformados, optando por uma amostra não probabilística de 7 indivíduos do sexo feminino e masculino, com mais de 60 anos de idade e com diferentes transições para a reforma. Os instrumentos de recolha de dados utilizados foram a recolha de dados documentais e observação indireta de forma a obter a informação procurada através de entrevistas de episódio em profundidade, com o propósito de proporcionar uma verdadeira troca de experiências e saberes, e uma recolha correta das informações necessárias junto da amostra, que se traduzam num grau máximo de autenticidade e profundidade. Foi também elaborado um guião de entrevista que permitiu que os entrevistados se expressassem livremente sobre as diferentes temáticas. Para a realização do tratamento e análise das entrevistas foi tido por base o processo de análise de dados proposto por Creswell, (2007), Rossman & Rallis (1998).  Foi realizada uma transcrição das entrevistas para textos através da gravação de áudio e realizada uma codificação de dados através do programa MAXQDA.

Quais são as conclusões?

Ao longo do ciclo de vida estamos sujeitos a diversas transições, sejam elas previstas ou acontecimentos inesperados, que nos levam a constantes processos de adaptação. A entrada na reforma, mesmo quando ocorre de forma voluntária, está associada a sentimentos de ansiedade. Contudo, após esta fase inicial os reformados acabam por conseguir ultrapassar as barreiras e as suas limitações mantendo-se ativos, através da criação de novos objetivos e projetos com as quais se sintam úteis e valorizados, e procurando satisfazer os seus desejos que passam por exemplo pela prestação de apoio familiar e voluntariado.  O apoio familiar, social e comunitário torna-se fundamental nesta fase do ciclo de vida, dado que os diferentes papeis sociais adquiridos (papel de avós, cuidadores, voluntários, formandos, formadores) assumem um forte impacto no sentido que os reformados dão à sua existência e a falta do mesmo poderá dar origem a sentimentos inutilidade, depressão, angústia e tristeza. Por essa razão, é fundamental que se preservem os relacionamentos anteriores e se desenvolvam novos laços afetivos. Constata-se que a oportunidade de liberdade e controlo da vida pessoal aliado à ocupação do tempo com atividades que produzam felicidade e satisfação, revelam que facilmente as vivências do presente corresponderão às expectativas criadas anteriormente.

Porque são relevantes os resultados, para o público?

A necessidade de preparação para a reforma é algo evidenciado nesta investigação por parte dos entrevistados reformados, pois apesar de serem criadas algumas expectativas e de facilmente se identificarem os benefícios da reforma, existem momentos de grande ansiedade e de crise por se tratar de uma nova etapa da vida onde prevalece a nova estruturação de rotinas, objetivos de vida e papeis sociais.  Deste modo, a falta de conhecimento e reflexão sobre esta temática pode levar ao desenvolvimento de práticas e comportamentos por parte dos indivíduos mais velhos que não promovem a sua qualidade de vida. É neste sentido que se torna essencial uma reflexão por parte dos trabalhadores mais velhos sobre as suas vivências, competências e potencialidades para que possam planear a sua reforma, evitando assim, a solidão e o isolamento social mas, também,  uma reflexão por parte do poder político e pelas entidades empregadoras no sentido de desenvolverem medidas e respostas inovadoras que permitam uma preparação para a reforma através de medidas generalizadas a todos os trabalhadores ativos que irão passar brevemente por um processo de transição como também a todos os reformados que necessitem de uma continuidade de apoio após a sua reforma.

O que é importante investigar a seguir nesta área?

Esta investigação permite-nos conhecer a perspetiva da transição para a reforma por indivíduos já reformados tendo em conta as suas vivências. Porém, para que a criação e desenvolvimento de medidas de preparação para reforma sejam generalizadas e tenham em conta a singularidade de cada indivíduo é importante dar voz aos trabalhadores mais velhos e conhecer quais as suas necessidades, dificuldades e expectativas.  Por outro lado, também será necessário investigar aprofundadamente os grandes desafios do aumento da longevidade para o mercado de trabalho.

* Como é que as empresas podem atuar nesse processo de transição para a reforma?

Por não ter investigado aprofundadamente esta temática, deixo algumas recomendações do que foi possível apurar segundo a minha pesquisa e segundo as opiniões dos entrevistados:

- Criar cursos de preparação para a reforma durante o período de trabalho;

- Horários flexíveis de forma a que se possam estabelecer novas rotinas e novos projetos;

- Aproveitar todo o conhecimento dos trabalhadores mais velhos e dos trabalhadores reformados através de formações aos trabalhadores mais novos;

- Proporcionar aos trabalhadores mais velhos em fase de transição a prática de trabalhos menos exigentes, de acordo com as suas competências e capacidades, de forma a que mantenham sentimentos de utilidade e de valorização.

 
 
 

Este estudo – componente do Mestrado em Gerontologia Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – procura compreender como é o processo de transição da vida ativa para a reforma. Como metodologia de investigação, a autora entrevistou sete indivíduos, em situação de reforma, de modo a conhecer as vivências dos entrevistados antes, durante e depois desse processo de transição. O guião que conduziu a entrevista permitiu o conhecimento aprofundado da experiência de reforma de cada indivíduo através da “caracterização dos perfis e trajetória de vida”, da compreensão das condicionantes individuais que ajudaram a construir esse “período de transição para a reforma”, da perceção de mudanças durante o “período de adaptação à reforma”, do aprofundamento da compreensão pessoal dos conceitos de  “velhice e reforma” e da “retrospetiva e expectativas do futuro enquanto reformado” .

Entre as conclusões, a autora aponta que o suporte familiar e social é fundamental nesta nova etapa, onde os indivíduos reformados direcionam a atenção e criam novas rotinas baseadas em novos papeis sociais que ajudam a fortalecer os sentimentos de pertença e de utilidade. A autora destaca ainda que a satisfação constatada nos reformados após a transição para a reforma poderia ter sido antecipada se tivesse existido uma preparação para essa fase através de apoio formal ou informal.

 
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