Anémic Cinéma - Marcel Duchamp. Good Boy Bad Boy - Bruce Nauman.

CRÍTICA - A perspectiva de Daniel Lima Arnaut

A Loops.Lisboa, uma iniciativa do Festival Temps d’Images Lisboa, tem como objectivo
“reflectir sobre e celebrar o Loop como linguagem”. A exposição dos vídeos Anémic Cinéma
e Good Boy Bad Boy comemoram “o nascimento de uma rede internacional dedicada à
pesquisa da forma do Loop”. É de referir, ainda, a evidência de que a importância histórica
destas obras introduz e contextualiza os vencedores do Prémio Sonae Media Art, em
exposição no mesmo museu.

 

A instalação de Bruce Nauman - Good Boy Bad Boy (1985) - é composta por dois monitores lado a lado, onde uma mulher e um homem, num plano fixo em close-up, repetem cem frases escritas pelo artista. O texto começa com “I was a good boy / You were a good boy / We were good boys / That was good”, recitado cinco vezes até recomeçar. O tom didáctico, inicialmente sincronizado e convidativo, continua progressivamente mais intenso até se tornar desconcertante.

Embora comecem de um modo neutro e casual, como a leitura de cada actor não demora o mesmo tempo é criado um desfasamento que aumenta progressivamente até ao “final” do loop. Esta desarmonia, juntamente com a diferença das interpretações, e a natureza contraditória dos temas como jogo e trabalho, ou bem e mal, cria uma tensão da qual o espectador faz parte pelo uso alternado dos pronomes pessoais “I”, “You” e “We”. A estranheza desta lição de moral é exacerbada pela alternância do género nas frases, que ora corresponde ou não ao seu locutor, realçando assim a ambiguidade da linguagem num contexto identitário.

O filme de Marcel Duchamp - Anémic Cinéma (1926) - projectado na parede oposta da mesma sala, mostra, em plano fixo, dez Rotoreliefs intercalados com nove discos giratórios escritos com jogos de palavras e aliterações. Os Rotoreliefs são discos pintados que ao girarem produzem a ilusão de volume. Não há som nem cor e as frases não fazem sentido, embora sejam provocadoras.

As diversas imagens que rodam em sentido contra-relógio, a velocidades diferentes, criam no espectador uma dimensão própria. Seja através da ilusão óptica pelo movimento, um dos temas favoritos dos modernistas, ou dos cenários surreais que as frases evocam. A
dualidade entre o silêncio visual e o som da leitura estabelece o ritmo da experiência. O artista assina com o seu alter-ego ficcional, Rrose Selavy, estendendo a ilusão para fora do filme.

Estas duas obras concretizam a forma como a linguagem tem vindo a substituir a forma, ao longo da história da arte, e consequentemente o desaparecimento do belo e a primazia que se dá ao conceito. O uso da linguagem também explora a permutabilidade da identidade através do género. Nos dois casos a participação do espectador é inevitável e essencial. No primeiro, porque a imagem se refere a nós directamente e, no segundo, porque o efeito tridimensional ou o trocadilho só existe em quem o contempla.

O loop como técnica afasta estas obras do cinema, ao mesmo tempo que lhe confere uma permanência e estabilidade características das artes plásticas.

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