ENSAIO

Banana no más

por Daniel Lima Arnaut 

27 Dezembro 2019

A famosa banana colada à parede com fita-cola, exposta na Art Basel Miami Beach, sob o título Comedian, não sobreviveu até ao final da exposição. A obra de arte foi comida por outro artista durante um acto performativo e, no dia seguinte, a parede branca onde foi exposta Comedian sofreu uma terceira intervenção, desta vez por um espectador, que escreveu um meme a batom vermelho.


É raro quando a arte contemporânea passa a tema popular de conversa, mas quando acontece, é por razões morais ou económicas, e não pelo seu valor estético ou artístico. Neste caso, a instalação tornou-se viral pelo seu preço extraordinário. Para a vasta maioria de pessoas que descobre quanto custa esta obra, a surpresa é sempre acompanhada de escárnio. A questão - “e se tivesse sido eu a colá-la na parede, também valia o mesmo?” - é inevitável, a noção de valor predominante ainda está associada ao trabalho, à habilidade, ou à raridade. Talvez se o objecto estivesse associado a alguém famoso, ou a um acontecimento importante, a situação fosse mais fácil de aceitar, mas a banana foi comprada por 120.000$ antes de se tornar famosa. A arte contemporânea, que habita nas galerias, ao contrário da arte tradicional, que habita nos museus, não legitima nem reforça o status quo, pelo contrário, acaba mesmo por o expor.


A palavra "meme", que se tornou ubíqua nas nossas vidas, foi introduzida e popularizada por Richard Dawkins, em 1976, no livro The Selfish Gene. Ele define a palavra como uma unidade de transmissão cultural, que pode ser uma ideia, um comportamento, um estilo, ou um modo de usar que se transmite, de pessoa para pessoa, culturalmente. Assim, como a evolução biológica é conduzida pelos genes mais aptos da pool genética, a evolução cultural é conduzida pelos memes mais populares. O cientista argumenta que os memes são para a cultura o que os genes são para a vida.


 

 

 

Talvez esta definição seja um bom ponto de partida para compreender a popularidade de Comedian, uma obra de arte que se transformou num meme. O representante da galeria que vendeu a banana defendeu-a como um símbolo de comércio global, de double entendre, e como um clássico objecto humorístico. Também acrescentou que o trabalho do artista não era só sobre objectos, mas sobre a maneira como eles se movem pelo mundo - seja montada numa parede ou na capa do New York Post, a obra obriga-nos a questionar o valor que atribuímos às coisas. Segundo o artista, a reacção à banana faz tanto parte da obra como a própria banana. A obra é uma ideia, e o objecto a sua representação física, a ligação entre as duas partes faz-se através do certificado do artista, sem ele, o objecto reverte à sua condição inicial de fruta.


Através do humor, Comedian tira partido do estado da arte contemporânea sem alienar os seus participantes, e sem ser crítico. O humor reside principalmente no absurdo do artista ter convertido um objecto tão ordinário num item de luxo por meios ininteligíveis. Incluído no preço notável, e para além do certificado de autenticidade, vem um manual de instruções caso seja necessário substituir a banana. Não é a procura nem a escassez do mercado que determinam o valor do objecto, mas em última análise a vontade do artista. É esta característica que separa o objecto artístico dos outros objectos, e o aliena da experiência da população em geral.

 

O contraste entre banalidade e luxo, tão característico da nossa época; entre uma banana normal e aquela banana em particular, entre estar em Miami e assistir ao fenómeno, ou segui-lo à distância através dos media, transforma esta imagem num símbolo, cínico e absurdo. O objecto, digitalizado pelos media e pelas selfies, apresenta-se como um reflexo das contradições da vida contemporânea. Na internet, o seu significado multiplica-se e transforma-se, o que permite a esta interacção cultural dar à luz inúmeras réplicas, inclusive supermercados que passam a expor a sua fruta do mesmo modo, mas por preços mais acessíveis.
 

É o duplo carácter de Comedian, que o viabiliza como um ponto de contacto entre o 1% e o resto da população, e é nesta perspectiva que a obra se torna num alvo de interferência. Para o deleite do público presente, um artista que visitava a galeria na condição de espectador, comeu a banana, e declarou à multidão que o filmava ser um “hungry artist”. Depois de ser convidado a sair da exposição pela segurança, e sob a força mediática do objecto, explicou que as suas acções eram uma performance artística. A galeria, que tinha uma banana em reserva, imediatamente restaurou a obra e colocou-a sob guarda.
 

No dia seguinte, e último dia da exposição, a obra não foi exposta porque as multidões, ansiosas por se fotografarem com a banana, punham em risco o bem estar das outras obras, e bloqueavam o acesso ao espaço. A parede onde esteve a banana encontrava-se vazia, mas um espectador, sob a influência do seu poder mimético, decidiu escrever na parede, a baton vermelho, um meme político controverso. Ao ser interpelado pela segurança, o espectador foi filmado a perguntar se não estava na galeria onde toda a gente podia fazer arte, e porque é que o outro artista comeu a banana sem interferência, mas ele era impedido de escrever na parede.
 

Para jogar o jogo, é preciso seguir as regras, e temas que invocam corrupção política e conspirações, são incompatíveis com o ambiente esterilizado da arte contemporânea. Numa indústria onde se transforma uma fruta em 120,000$, não se corre qualquer risco. A última obra do artista antes de Comedian, uma retrete funcional em 18 quilates de ouro intitulada de “America”, foi roubada enquanto era exibida em Londres. Desta vez, a banana que é substituída como um ramo de flores numa jarra, vai continuar a exercer o seu poder atractivo e a simbolizar o absurdo dos nossos tempos, até ser sucedida por um novo meme.
 

Na arte, o objecto descontextualizado serve de veículo para uma ideia, mas a reprodução infinita deste objecto através da tecnologia converte-a num símbolo. É o olhar do espectador que faz a obra, mas a sua digitalização transforma-a.

O meme que ficou escrito, referente à polémica morte de Jeffrey Epstein num estabelecimento prisional nos EUA

David Datuna, o "artista" que comeu a banana.

Foto 210 Casal da Mira 05-40 25.10.2018

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