Classe e ordem social

David Ost

traduzido e adaptado por António P. Castelo

Faço três afirmações neste capítulo. Primeiro, defendo que, historicamente, é através do surgimento das classes – movimentos de classe, revindicações de classe, conflitos de classe – que o capitalismo eventualmente levou a uma ordem democrática. Segundo, defendo que no presente estádio global de capitalismo neoliberal, as revindicações e frustrações de classe são cada vez mais expressas em quadros de reivindicação que recorrem a narrativas culturais. A terceira afirmação é que é por esta razão – a reconceptualização da classe em termos culturais – que se torna cada vez mais difícil manter uma ordem, ou pelo menos uma ordem democrática.


Durante bem mais de um século, as políticas de classe foram o tema político dominante nos países capitalistas desenvolvidos, e por essa razão (essa ligação ao modernismo), esse foi o assunto preponderante das democracias em quase todo o resto do mundo. Desde há umas décadas para cá, começando com os movimentos sociais dos anos 60, a classe tem perdido o papel central nas reivindicações políticas. O declínio não foi repentino, mas a tendência é clara. Hoje, e também devido ao impacto da globalização, muitos os que antes se identificavam com movimentos da classe trabalhadora, e que estão nas camadas mais vulneráveis do espectro económico, são hoje, em vez disso, apoiantes de movimentos e narrativas nacionalistas, étnicas e religiosas. Este fenómeno tem vindo a crescer no cenário político ocidental desde o declínio económico dos anos 70, e é também bastante visível na Europa do Leste.
Um dos temas centrais na política é a forma como a insatisfação económica se expressa de uma forma organizada. São as frustrações, a raiva e as emoções relacionadas com a vulnerabilidade económica expressas em termos de classe ou em termos culturais? Quando esta raiva é expressa em termos de classe, os que articulam o problema focam o discurso nas relações económicas desiguais entre grupos sociais, e abraçam um movimento ou uma narrativa que propõe uma redistribuição da riqueza, seja através do estado na forma de política fiscal, seja contornando o estado através de negociações entre trabalhadores sindicalizados e o capital, ou entre empregador e trabalhador. Quando as insatisfações económicas são organizadas e expressas em paradigmas culturais, as não-elites e os que estão no fim da cadeia económica das políticas capitalistas abraçam um movimento ou narrativa política que se foca em soluções definidas em linhas identitárias, e identificam “outros-não-económicos” como alvo das suas frustrações e insatisfação.


No período do pós-guerra, encontrou-se uma forma de alinhar, em aparência, os interesses do trabalhador e do capitalista no Ocidente. A narrativa da necessidade de uma economia nacional sólida tornou isso possível. Nas economias nacionais ainda relativamente fechadas no Ocidente do pós-guerra, quando uma sociedade massificada e urbana se tornou num dado adquirido, os interesses dos trabalhadores foram vistos como alinhados com os do capital, pois era necessário construir uma classe consumidora para gerar procura. Foi esta convergência de interesses que permitiu que durante cerca de 30 anos vivêssemos os anos dourados que se seguiram à segunda guerra mundial.


No contexto da globalização, este status quo deixou de ser possível. Primeiro, a competição global e a abertura dos mercados – sobretudo aos bens e ao capital, e menos aos trabalhadores - levou ao declínio da produção nos países desenvolvidos e consequentemente dos empregos que garantiam alguma inclusão como solução de compromisso entre o capital e a classe trabalhadora. O capital simplesmente saiu em busca de salários mais baixos e custos reduzidos. Enquanto nas economias nacionais e relativamente fechadas as elites e as não-elites estavam condenadas a encontrar a tal solução de compromisso - que era até lucrativa e essencial para as elites pois gerava os tais mercados de consumidores - nas economias globais as elites podem distanciar-se das não-elites, já não precisam necessariamente do seu trabalho, e podem assim rejeitar revindicações de salário e melhorias de condições de trabalho e de inclusão social. Segundo, a revolução tecnológica cria grandes rupturas na estrutura das classes. O grande aumento na procura de trabalhadores tecnicamente qualificados levou a um aumento na formação e ensino superior, cujos produtos têm interesses e necessidades muito diferentes dos trabalhadores industriais ou não-qualificados, e que por isso não se identificam como classe trabalhadora. Surgem muitos novos empregos que envolvem tecnologia de ponta, e a expansão do sector dos serviços e do sector público gera empregos que não são tradicionalmente considerados empregos do proletariado ou da típica classe trabalhadora. O resultado disto é que a categoria unificadora e universal de “classe trabalhadora” começa a ser vista como um segmento particular do sector de emprego, que representa os interesses dos trabalhadores não-qualificados ou estritamente industriais. Por um lado, a categoria de “trabalho” torna-se complicada e problematizada e o mundo dos trabalhadores assalariados parte-se em divisões internas e fica sem de elementos narrativos unificadores.


Quando as políticas de classe já não estão comprometidas com as políticas nacionais, a classe já não é um factor essencial para uma estabilidade política nacional. Para já, o termo “classe” não transporta o peso e o poder que transportava. As alternativas globais na produção, e cada vez mais também para o consumo, fazem com que nas sociedades industriais mais avançadas já não seja vantajoso para as elites satisfazerem as necessidades das não-elites. Os movimentos Marxistas que emergiram no Ocidente e que de facto conferiram direitos e vantagens aos trabalhadores são agora mais plausíveis nas economias orientais, como a China, e não nas economias de serviços europeias originalmente industriais, com um estado social, nos quais o capital já não tem de estar comprometido com os trabalhadores.


O resultado, por um lado, é que os empresários contestam cada vez mais as exigências de inclusão laboral, e tentam ainda recuar nas cedências que tiveram de fazer no passado aos trabalhadores. Por outro lado, os trabalhadores exigem cada vez menos. Exigem menos porque têm cada vez menos capacidade de conseguir alguma conquista, porque o capital tem mais opções e porque a classe trabalhadora já não está unida.


O paradoxo é, então, que quanto mais as divisões de classe se acentuam e a desigualdade se instala, mais os movimentos políticos de classes desvanecem. O discurso de classe já não colhe os frutos que colhia. O discurso de que todos beneficiamos com uma redistribuição económica, com taxas de emprego próximas dos 100% e com estados sociais poderosos já não convence as elites económicas. E porque tem opções de que não dispunha anteriormente, a sua resistência torna praticamente impossível aos governos neoliberais a persecução e construção de sociedades inclusivas. Os trabalhadores deixam de lado o discurso de classe quando percebem que este já não lhes confere ferramentas discursivas e um quadro reivindicativo eficaz, e deixa de ser por aí que negoceiam e procuram alcançar o seu avanço económico.


E então vão pela cultura. Hoje, mais do que anteriormente, a classe é expressa através de linhas culturais. Pelo facto de a “classe” já não oferecer um quadro reivindicativo que produza resultados materiais, no sentido em que é menos apelativo numa contemporaneidade globalizada e tecnológica – o que leva muitos trabalhadores a acreditar que já não pertencem à classe trabalhadora – os trabalhadores procuram atingir os sus interesses reivindicando em linhas culturais. Colocando a ênfase em diferenças culturais, e afirmando-se como o segmento da população “normal”, que incorpora a cultura e a legitimidade histórica de determinada nação - e respectivas sociedade e economia – os trabalhadores vulneráveis procuram reorientar os recursos que podem permitir o avanço dos seus interesses e o cumprimento das suas necessidades. Se a “classe” já não dá, têm que se virar para outro lado.


O “outro lado” é quase sempre a nação. À medida que o discurso de classe desaparece, e consequentemente a sua capacidade reivindicativa, o discurso nacionalista ganha força. A nação é o outro caminho, para além da classe, através do qual as não-elites têm conseguido conquistas ao longo da História. A nação nunca despareceu, mesmo no auge do discurso de classes, e mesmo no auge dos movimentos internacionalistas socialistas e comunistas. Justamente porque
as economias eram relativamente fechadas, e esse era o modelo dominante no ocidente, os trabalhadores enquadravam as suas reivindicações em termos de classe e em termos nacionais - de estado – e o capital tinha dificuldade em resistir. Não havendo ainda a possibilidade de atravessar as fronteiras em busca de uma força de trabalho mais barata, o capital precisava dos trabalhadores locais para se manter, permitindo aos mesmos exigir mais inclusão, tanto laboral como em termos de cidadania. Mesmo os movimentos marxistas internacionalistas afirmavam que primeiro os trabalhadores tinham de garantir as conquistas nacionais antes de se aventurarem em movimentos além-fronteiras.


A viragem do discurso de classe para o discurso cultural não é uma rejeição consciente e voluntária de um discurso para o outro, é mais uma retirada para a cultura agora que a classe já não transporta capacidade reivindicativa. Os discursos nacionalistas e étnicos, e outros que possam surgir em linhas culturais, não são uma fuga dos de classe, são apenas um caminho através do qual os trabalhadores de classes mais baixas das culturas dominantes acreditam que podem atingir as suas aspirações económicas. Quando a classe já não é apelativa, uma estratégia racional é desviarmo-nos desse quadro reivindicativo e aproveitarmos um outro que esteja disponível e que possa, potencialmente, dar frutos.


E assim verificamos, em anos recentes, uma longa lista de países que de lugares onde os votos das classes trabalhadoras voam dos partidos bem encostados à esquerda para os partidos bem chegados à direita – dos partidos que falam em termos de classe para os partidos que falam em termos de cultura.


Esta aderência à cultura não é um fenómeno completamente novo. É, de certa forma, um regresso ao velho caminho pré-moderno, pré-casses, de inclusão social. As alianças entre o estado e os camponeses eram comuns na Europa pré-moderna, como o camponês a afirmar ser um súbdito leal e o estado a proteger os seus súbditos contra alguns abusos da nobreza. As lealdades culturais têm sempre sido fruto de contextos de relações de conflito entre classes. A classe foi de facto a categoria central nos movimentos sociais das massas urbanas empobrecidas no século XX, mas isso foi excepção, e não a regra. Foi, decididamente, uma excepção extremamente benéfica do ponto de vista das democracias, visto que os conflitos definidos em termos de classe e não em termos culturais foram o que permitiu a incorporação universal dos trabalhadores como cidadãos. Com o regresso da cultura como quadro reivindicativo das insatisfações económicas e de classe, vemos o regresso de uma perspectiva anti-democrática de uma ordem social, na qual só as pessoas “certas”, da cultura de cada país, é que têm direito aos benefícios plenos da cidadania.


Dizer que a classe ainda é, apesar de não estar articulada como tal, um eixo de conflito, é dizer duas coisas. A primeira é que as pessoas ainda vêm a desigualdade como algo criado pela sociedade, e não como algo imutável e fatalista. Isto é, acreditam que há um leque de intervenções disponíveis – como melhores empregos, mais e melhor acesso á educação, um estado social mais inteligente e eficaz, ou menos discriminação – que podem melhorar as suas condições de vida de uma forma determinante. Segundo, é dizer que as pessoas têm consciência de que há uma série de evidências que demonstram que a posição que ocupam na estrutura económica de uma sociedade determina as oportunidades a serão expostas ao longo da sua vida. Isto significa que a classe continua a gerar conflitos. Mesmo que o discurso de classe não seja hoje o discurso dominante, as condições que levam à insatisfação e à luta de classes ainda estão, e talvez mais do que nunca, presentes. A desigualdade económica não irá desaparecer como eixo de conflito social, mesmo que não seja entendida socialmente como tal.


Desigualdade e cultura – ou disparidades económicas e culturais – são eixos de conflito históricos. A cultura sempre existiu como categoria em torno da qual os conflitos se organizam politicamente, mas as desigualdades económicas têm de ser entendidas em termos de classe – posição estagnada numa estrutura pouco fluída, económica, e hierarquizada – para levar a um conflito que se torna óbvio e que se traduza em luta política. Quando as desigualdades são vistas como algo imutável e fatal, podem gerar frustração e até desespero, mas não se tornarão o cerne de conflitos políticos. Os movimentos políticos não se constroem á volta de questões de desigualdade económica se as pessoas não acreditarem que a situação possa ser alterada.


A classe passou a ser um eixo central de conflito quando o comunitarismo feudal despareceu, o capitalismo se instalou, e as democracias prometeram inclusão social e económica através da cidadania e do estado de direito. O termo, e a realidade, de “classe” surgem justamente neste contexto histórico. A atenção focou-se na desigualdade construída socialmente, e na promessa (ou pelo menos possibilidade) de uma redução ou eliminação destas desigualdades. Durante 125 anos depois da publicação do Manifesto Comunista, publicado em 1848, a classe serviu como uma eixo de conflito viável, plausível e óbvio através do qual as lutas políticas se puderam organizar. O facto de isto hoje não ser o caso deve-se à forma como a globalização privilegia o capital e enfraquece os trabalhadores. Mas o desaparecimento do discurso de classe não implica o desaparecimento do conceito de classe. Os trabalhadores querem alterar a sua situação económica, mas não estão convencidos de que é possível fazê-lo organizando-se num quadro reivindicativo explicitamente construído em representações de classe. Em vez disso, procuram fazê-lo organizando-se num quadro reivindicativo expresso em representações culturais, e este é um eixo de clivagem que o capital tem todo o interesse em promover, visto que desta forma assegura os seus interesses e o verdadeiro conflito não é expresso nem tornado óbvio.


Os resultados deste processo, desta transição, são dramáticos, sobretudo nas democracias europeias. Historicamente, a política do equilíbrio e diálogo de classes que sustenta as democracias, e que tem servido de base para a construção das democracias inclusivas, socialistas e social-democratas. Isto acontece porque enquadra o “outro” social não em termos identitários ou culturais mas em termos económicos e de interesses, ou de agendas políticas e económicas. Quando o “outro” social é definido em termos culturais ou identitários, instala-se uma perspectiva de que é necessário convertê-lo, assimilá-lo à cultura “certa”, ou então expulsar ou extraditar os que pertencem à cultura “errada”. A identidade, contudo, não é tão negociável com os interesses ou as agendas económicas, ou seja, muitos “outros” não poderão ser assimilados para a cultura dominante, por possuírem atributos sobre os quais não há alteração possível, e porque as cultura “certa” é definida em termos exclusivistas justamente para poder, historicamente, excluir aqueles que categoriza como diferentes. Muitas pessoas não querem livrar-se das suas identidades, e nem isso seria ideal nem desejável, identidades essas que são mais fundamentais e nucleares do que os interesses económicos, que podem ser alterados circunstancialmente. Uma distinção e definição económico do “outro” permite uma política de redistribuição e equalização económica como base para fortalecimento do tecido social, e as representações e construções identitárias não são relevantes. Esta combinação frágil de inclusão económica e pluralismo identitário é o que floresce nas democracias, e que por sua vez as torna sólidas, saudáveis e duradouras.


A presente predominância da cultura sobre a classe não é, como já vimos, uma novidade. É uma re-edição do que acontecia no período anterior ao domínio da política de classes, quando as não-elites que procuravam melhorar as suas condições de vida faziam-no articulando as suas aspirações em linhas nacionalistas ou culturais. Uma breve visita a alguns destes casos podem revelar de que forma as divisões culturais podem ser usadas para servir os interesses das classes, com consequências profundamente antidemocráticas e através da exclusão com base na identidade.
Nos Estados Unidos, por exemplo, as políticas raciais sempre estiveram imbuídas do conflito entre classes. Após a guerra civil americana, os trabalhadores que se viram confrontados com condições de trabalho cada vez piores devido aos novos trabalhos nas fábricas e com a perda da sua independência económica e das suas liberdades individuais, viraram-se para a raça como quadro de reivindicação para exigir melhores condições laborais e sociais. Num sistema capitalista com monopólios emergentes que retirava do controlo dos trabalhadores o seu poder laboral, estes começaram a invocar a branquitude como base de argumentação para denunciar as injustiças económicas a que estavam a ser sujeitos, e que por serem brancos mereciam mais. Teoricamente, a “classe” seria um quadro reivindicativo mais correcto para servir esse propósito, mas ainda não estava disponível como categoria/conceito mobilizador – os sindicatos e os movimentos classistas estavam ainda a aparecer na Europa – enquanto a raça estava disponível há vários séculos e servia para categorizar os trabalhadores de pele clara como “brancos”, ou como social e culturalmente dominantes, como uma “classe” que neste caso não deveria ser a mais baixa.


O racismo permitiu assim aos imigrantes brancos na América invocar a branquitude como categoria mobilizadora de garantias, vantagens, e privilégios sociais, económicos, e de cidadania. Este é um exemplo de como a cultura pode ser mobilizada como quadro reivindicativo de uma classe vulnerabilizada. Claro que há vantagens não só para os trabalhadores que garantem avanços desta forma. Os interesses da elite económica também são salvaguardados, pois garantem assim que os movimentos de reivindicação ficam restritos àquela categoria e que a inclusão não tem de ser total e abranger todos os trabalhadores. O que é facto é que aqueles trabalhadores brancos são efectivamente beneficiados. Organizando-se em termos culturais e nacionais, os trabalhadores alcançaram conquistas económicas significativas. Longe de ser uma rejeição de políticas de classe, a cultura foi a base sobre a qual estas classes assentaram as suas lutas e conquistas.


Neste caso, como é óbvio, as conquistas económicas de inclusão não se estenderam a todos os membros da classe trabalhadora. Os que não conseguiram demonstrar a sua branquitude não foram considerados nem incluídos. É de recordar que nesta altura nem os imigrantes irlandeses, nem os judeus, nem os católicos da europa do leste eram considerados imediatamente “brancos”. Apenas imigrantes como os ingleses, francófonos, os germânicos e os nórdicos adquiriam esse estatuto imediato. Mesmo sendo racistas, estes movimentos políticos não totalmente inclusivos são considerados movimentos de classe, embora anti-democráticos e racistas. Os trabalhadores nunca abdicam totalmente dos elementos identitários em prejuízo da classe, não se podem dar a esse luxo. Precisam de manter todos os elementos recursivos que lhes possam conferir alguma vantagem no acesso ao capital social, cultural ou económico, por mais precário e parco que possa ser. Na história recente, os trabalhadores vêm-se na situação de construir todas as combinações possíveis de atributos identitários de forma a poder reivindicar justiça económica, seja a idade, o género, a cor da pele, origem geográfica, etnia, ou qualquer outra que esteja disponível. “Como consequência, a patriarcado, o racismo, o nacional-chauvinismo têm sido integrais na construção dos movimentos trabalhistas mundiais… e permanecem de uma forma ou de outra na maioria das ideologias e organizações do proletariado” (Arrighi 1990).


Estarão, a longo prazo, os trabalhadores da cultura maioritária a votarem contra os seus interesses quando escolhem movimentos políticos de extrema-direita com discursos nacionalistas e xenófobos, quando muitas vezes estes não cumprem as promessas de inclusão económica para as massas da cultura dominante? Isso depende do que o outro lado oferece. No caso português, também os governos de esquerda têm ignorado as reivindicações mais urgentes e profundas dos trabalhadores mais precarizados, têm-se abstido de construir uma visão realista e promissora de um futuro sólido e seguro para a classe trabalhadora contemporânea. Assim a balança fica equilibrada. Se os seus interesses económicos não estão a ser representados por nenhuma das forças políticas na arena, as não-elites da cultura dominante poderão, racionalmente, pensar que os seus interesses económicos serão defendidos fundamentando as suas reivindicações numa base nacionalista e da cultura-maioritária e “original”. Ser reconhecido como membro nuclear e original da nação pode conferir-lhes algum capital simbólico que possivelmente será convertido em inclusão económica num estado nacionalista e exclusivista. Como verificámos, foi exactamente isto que aconteceu nos Estados Unidos no caso dos trabalhadores brancos no pós-guerra civil.
Actualmente, este padrão é cada vez mais comum na Europa. Aqui o que acontece é que podemos ver eleitores da classe trabalhadora a largar os partidos clássicos e históricos da esquerda e a rumar aos partidos de direita que se organizam em linhas nacionalistas, racistas e xenófobas. Os trabalhadores viram-se para os partidos nacionalistas de forma a adquirir status, nas suas representações, como os membros fundamentais da nação, e esperam assim obter as recompensas económicas condizentes com essa condição original. Por outras palavras, procuram os recursos simbólicos que possam ser convertidos em recursos económicos. Muitos dos que viram para a direita acreditam e defendem este discurso. Mas, mais uma vez, aqui a retórica nacionalista serve sobretudo a luta das classes mais vulneráveis. O facto de estar a ganhar preponderância no quadro económico actual, num pico inédito de desigualdade económica e falência redistributiva, numa altura em que o ensino superior já não garante de forma nenhuma o acesso a um nível de vida de classe média (muito menos o ensino secundário), as pessoas têm a esperança de que se organizarem em torno de uma mensagem nacionalista e cultural consigam ser incluídas da mesma forma que a mensagem em torno da classe conseguia anteriormente. E mesmo que não se consiga uma inclusão muito ampla, visto que a criação de categorias do outro estão disponíveis e são exclusivas, pelo menos que os inclua a eles. Os trabalhadores procuram avançar da forma que podem. Não insistirão em políticas inclusivas de todos os membros de uma classe económica vulnerabilizada quando perspectivam que os recursos só chegariam para os incluir e proteger a eles.
Mais uma vez, a classe e a cultura não são mutuamente exclusivas. São categorias alternativas que estão disponíveis aos trabalhadores num sistema capitalista de forma a conseguirem as conquistas económicas necessárias para sobreviver.


A globalização e o declínio das políticas de classe ameaçam uma nova desordem mundial. Por um lado, a globalização proporciona ao capital uma fuga às fronteiras em busca de salários e custos de implementação mais baixos, o que reduz drasticamente as margens de negociação dos trabalhadores a uma escala local, e impede o surgimento da solidariedade de classe, forçando-os a procurar outros quadros de reivindicação para lutar por melhores condições de vida e inclusão económica. O declínio das políticas de classe está também relacionado com factores endógenos, como a massificação do ensino superior e os empregos tecnológicos que produzem por sua vez uma experiência de classe mais complexa do que a tipicamente perspectivada na luta de “burgueses vs trabalhadores”.


As políticas de classe e as políticas nacionalistas sempre foram invocadas paralelamente e com os mesmos objectivos. Os trabalhadores lutavam pelos seus interesses num contexto de estado e porque pertenciam a essa nação. Em nações sem grandes variações internas, isto conduzia, geralmente, a resultados de facto inclusivos. Em países de contexto pós-colonial, por exemplo, em que a racialização e a etnia são um factor de divergência instrumentalizado socialmente, as políticas de classe e as políticas expressas em termos culturais conduziram a resultados exclusivistas, em que um segmento particular de trabalhadores garantia a inclusão económica a custo da exclusão institucionalizada dos com a raça ou etnia “estrangeira.”


Hoje, numa contemporaneidade globalizada e neoliberal, quando as lutas políticas expressas em termos culturais procuram vantagens para as classes mais baixas da cultura dominante, os ganhos já não são para grandes segmentos da população. Assim, os que lutam por inclusão num eixo cultural não conseguem evitar construir categorias de um “outro” que terá de ser excluído, de ficar de fora. As políticas culturais tornam-se cada vez mais numa luta por um reconhecimento de pertença, e para um grupo cada vez mais restrito de pessoas.


No passado, mesmo quando a política de classes e a política expressa em termos culturais se conjugaram para a institucionalização da exclusão, como nos Estados Unidos, estas trouxeram frutos para a elevação de muitos trabalhadores – todos os que conseguiram invocar a branquitude. Eventualmente, estas vantagens foram estendidas aos restantes grupos através das lutas dos direitos civis e das lutas pela cidadania e igualdade de direitos perante a lei para todos os cidadãos e cidadãs nacionais. Hoje, porém, a globalização não só limita a extensão dos benefícios de classe a novos grupos de pessoas, como cria enormes pressões para a retracção dos benefícios que foram conquistados no passado. Assim vemos a erosão dos estados sociais – desinvestimento nos serviços de saúde pública e a reinstituição de propinas no ensino superior, por exemplo, no caso português – e a perspectiva de que vá piorar nos próximos tempos. Nestas condições, os movimentos políticos expressos em termos culturais acabam por exigir e lutar pela inclusão de apenas um segmento restrito dos trabalhadores, levando às políticas de exclusão que se dissipam por todo o Ocidente, com os imigrantes, as minorias os mais vulneráveis e os “outros” culturais marcados para exclusão.


A esfera da cultura para onde as questões de classe agora migram é tipicamente a esfera nacionalista: podemos verificar a forma como os trabalhadores nativos europeus abandonam os partidos de esquerda e social-democratas para se refugiarem em partidos nacionalistas, anti-imigração, alegando estar a defender os interesses dos “verdadeiros membros da nossa cultura e do nosso país.” A cultura aparece como uma forma de recuperar a percepção de inclusão de um passado recente. Mas com a globalização a impedir a concretização dessa inclusão real, económica, as lutas expressas em termos culturais são apenas segregacionistas e de exclusão.


O problema dos movimentos políticos expressos em termos culturais é que é sempre difícil atingir um compromisso. Ou as pessoas são parte de uma suposta e proposta cultura ou não são. Os movimentos políticos de classe são, pelo menos em potência, mais abrangentes. Ao contrário de movimentos nacionalistas, racistas, religiosos ou étnicos, onde categorias de pessoas são construídas como “outros” sem que possam fazer nada acerca disso, os movimentos de classe aceitam todos como membros da comunidade, e exigem uma redistribuição e forma a todos serem incluídos economicamente. Mas se os movimentos de classe já não conseguem concretizar essa redistribuição, e se a globalização gera cada vez mais pessoas que estão excluídas economicamente, então os movimentos políticos organizados em termos culturais são a ferramenta que os trabalhadores têm para lutar pelos restos.


Hoje, com a frustrações de classe a serem expressa através movimentos políticos organizados em termos culturais, é mais difícil manter uma ordem democrática. Os movimentos nacionalistas, numa era de globalização, já não têm como ser inclusivos. Isso cria desordem. No futuro, é previsível que a inclusão democrática das minorias, de todas elas, seja um problema cada vez mais acentuado no ocidente. A estrutura de classes ainda gera frustrações agudas e até desespero nos trabalhadores mais vulneráveis, mas o discurso de classe já acarreta poder mobilizador. Nestas condições, os movimentos políticos de exclusão são o caminho que muitos trabalhadores da cultura maioritária têm de procurar conquistas económicas. Este é um cenário que veio para ficar.

© 2017 Qi News. | TODOS OS DIREITOS RESERVADOS