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ENSAIO

A banana e o urinol

por Daniel Lima Arnaut 

10 Dezembro 2019

Uma banana colada à parede com fita-cola sob o título Comedian vendeu por 120,000$ na Art Basel Miami. Antes que a exposição abrisse ao público, uma segunda edição foi vendida pelo mesmo preço e uma terceira foi reservada por 150,000$. A banana e a fita-cola foram compradas numa mercearia local e instaladas pelo artista.
Há 102 anos atrás Marcel Duchamp comprou um urinol, virou-o ao contrário e assinou com um pseudónimo. A objecto foi enviado sob o título Fountain para a inauguração da exposição da Sociedade de Artistas Independentes em Nova Iorque, embora a sociedade aceitasse qualquer trabalho enviado, a peça não foi nem exposta nem vendida. Duchamp usou um objecto ready-made e ordinário para criticar a arte do seu tempo - ao expor o urinol invertido e recorrendo à linguagem expressa no título da obra, ele inverte a sua função de receptor de fluídos para o seu oposto: um objecto que expele água com uma função estética. Ele mostrou como são o contexto e a interacção com o espectador que fazem a obra de arte, e não a técnica ou o génio do artista; que a obra de arte pode ser conceptual no lugar de simbólica ou estética; e como o objecto artístico é um intermediário e não um fim. Esta obra é reconhecida como um dos momentos mais influentes da história da arte do século XX.


Hoje em dia este tipo de instalações são tão banais como uma banana e, às vezes, extraordinariamente rentáveis mas, ironicamente, a situação histórica inverteu-se. “The
banana, is supposed to be a banana”, disse o criador de Comedian. Não acrescentou mais nada sobre a peça mas comentou que uma cópia do original não vale nada sem o certificado do artista, e que, um trabalho como aquele, só é uma obra de arte se for vendida.

 

Tradicionalmente a obra de arte é criada pelo artista e reconhecida pelo público como um objecto com características técnicas e simbólicas particulares da época ou portadora de uma determinada ideia que reflecte o seu criador. Actualmente a obra de arte depende de uma instituição que salvaguarda a sua autenticidade e só é aceite quando entra no mercado. O que distingue esta banana colada à parede com fita-cola das outras bananas coladas à parede com fita-cola é o seu estatuto económico e legal. Neste caso valor da banana é determinado por um especialista - o artista - que determina o seu conteúdo emocional; e por um representante - a galeria - que avalia o seu potencial económico em relação às outras peças do mercado. Neste caso a obra não poderia ser nem demasiado barata nem demasiado cara - apenas o suficiente para ser encarada como objecto artístico, chamar à atenção, e ser vendida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A banana sempre foi uma fruta distinta - graças ao contraste da sua cor amarela e preta, às conotações sexuais, e o seu uso frequente na comédia. Uma fruta tão irreverente, exibida lado a lado com arte séria, exposta de uma maneira infantil e à venda por um preço exorbitante praticamente que garante o tratamento mediático que teve - o que faz desta peça uma bom exemplo do estado da arte contemporânea. O seu carácter viral e fotogénico chega, através das redes sociais, a um público cujos vencimentos estão muito longe do que ela vale e causa uma impressão suficientemente forte para justificar o seu preço. A banana mistifica e atrai-nos pela sua irresistível modernidade. Desde a Fountain que foram feitas algumas tentativas para resistir à comodificação das obras de arte, mas todos os esforços são inevitavelmente vencidos.

 

 

O artista plástico mais opulento do mundo - Jeff Koons - é o melhor exemplo desta transformação: a arte torna-se cada vez mais indistinguível do design e da publicidade que habitam num mundo global e a-histórico, um mundo de reprodução infinita tanto na dimensão material como digital onde o contexto se torna irrelevante e, por consequência, o papel do espectador relativiza-se até se tornar desnecessário. A comodificação das artes retira poder aos artistas que agora são obrigados a trabalhar por intermédios digitais ou institucionais que participam na finalização do produto. O processo artístico degenera numa estrutura feudal que se organiza e que vive maioritariamente à mercê de mecenas ou do estado que veem a arte como um ofício luxuoso.

 

O espectador torna-se passivo e desaprende a experiência artística através da sociedade do espectáculo. A crise da arte é uma crise espiritual, a nossa experiência alarga-se à custa de profundidade. Esta crise não significa menos arte ou menos artistas, significa apenas que a arte mudou. Também a religião deixou de ser um objecto de fé que codifica uma verdade universal e que nos exalta como sociedade. Uma banana é só uma banana, um meme, uma piada; e para o seu novo dono um símbolo de estatuto social. A banana confirma que quanto mais ricas são as sociedades menos espirituais são as pessoas, até a Fountain reaparece em agendas, canecas e cartazes como um objecto estético desprovido de conteúdo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Segundo a Artprice em 2019 o preço médio de uma obra de arte contemporânea é de 26,600$. O Rabbit de Jeff Koons bateu um novo recorde de um artista vivo ao ser vendido por 91 milhões. As artes plásticas são consideradas uma nova classe de activos porque, para além do requinte associado à sua posse, trazem retornos moderados e o mercado é pouco ou nada regulado. Assim, o valor das obras de arte é praticamente imune às turbulências do mundo económico - uma vantagem para quem quer diversificar investimentos.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com a captura quase total do objecto artístico pelo mercado, a experiência artística refugia-se nas artes performativas ou esconde-se à espera que alguém a procure, como um monge que se retira para um mosteiro citadino ou quando troca a sociedade pela natureza e vive em isolamento. É esse o futuro da arte.
 

Enquanto nos habituamos a esta nova realidade ficamos à espera de saber o que vai acontecer à banana quando apodrecer ou quando quiserem colá-la noutra parede.

"Fountain" de Marcel Duchamp

Marcel Duchamp

"Balloon Dog", de Jeff Koons

Foto 210 Casal da Mira 05-40 25.10.2018

Por António Castelo | Novembro 2019

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Página de trabalhos da Qi News relacionados com habitação.

Aqui estão reunidos os trabalhos que produzimos, nos vários formatos - reportagens, entrevistas, séries e documentários - que estão relacionados com a habitação em Portugal.

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Por António Castelo | Novembro 2019