A revolução irreversível da Inteligência Artificial no Ensino Superior
A Inteligência Artificial (IA) é, hoje, uma realidade incontornável. Para muitos, estas palavras evocam entusiasmo; para outros, semeiam receio. Independentemente da reação visceral que provoque, a IA veio para ficar e, se utilizada corretamente, possui o potencial de transformar a educação de forma profunda e benéfica. Para compreender o presente, é fundamental olhar para o retrovisor: estas tecnologias não são novidade, existindo sob diversas formas desde a década de 1960.
Os esforços iniciais focaram-se na robótica e na tentativa de replicar o comportamento humano. Após um período de estagnação, o interesse renasceu no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando as máquinas começaram a superar os humanos nos seus próprios jogos, desde o xadrez até ao complexo Go. Eventualmente, a aprendizagem automática (“machine learning”) evoluiu para assistentes de voz e sistemas de reconhecimento de imagem, abrindo caminho para o momento atual.
A era dos modelos generativos e o desafio pedagógico
A verdadeira disrupção ocorreu no início desta década com o desenvolvimento do ChatGPT e modelos similares, desenhados com o objetivo ambicioso de assimilar vastas quantidades de informação. Em 2023, estes sistemas já respondiam a quase qualquer questão num formato coloquial. “É como falar com uma criança, um amigo ou aquele tio que supostamente sabe tudo”, explica o Dr. Debasis Bhattacharya, coordenador do programa de Negócios Aplicados e Tecnologia da Informação da Universidade do Havai (UH). Segundo o especialista, foi essa acessibilidade que tornou a tecnologia tão disruptiva, especialmente no contexto educativo.
Bhattacharya integra agora uma nova força de tarefa dedicada à pedagogia e currículo de IA na UH, um grupo consultivo focado em desenhar a transformação curricular da universidade. A presidente da instituição, Wendy Hensel, tem sido uma defensora entusiasta desta mudança, argumentando que o ensino superior está numa posição única para liderar esta transição, baseando a inovação na ética e nos valores culturais.
O delicado equilíbrio entre personalização e ética
No entanto, seria imprudente ignorar os desafios. A educação baseia-se no esforço intelectual humano, mas a IA, à medida que melhora a sua capacidade de recuperação de dados, é treinada para agradar ao utilizador, e não necessariamente para o corrigir ou guiar. Existe o risco real de dependência automática sem o devido filtro crítico entre facto e ficção. Além disso, surgem questões prementes sobre privacidade e ética: a IA não distingue o certo do errado, não possui empatia e, atualmente, opera com poucas restrições sobre como partilha a informação que recolhe dos utilizadores.
Apesar destes riscos, as oportunidades são vastas. O ideal educativo de uma aprendizagem personalizada, adaptada ao ritmo de cada aluno, está agora ao alcance através de “agentes de IA”. Estes sistemas autónomos permitem aos educadores expandir a sua capacidade de ensino individualizado. “Posso criar um agente de IA para cada estudante na minha sala de aula, estendendo a minha instrução de forma individual”, nota Bhattacharya, visivelmente entusiasmado com a possibilidade de gerir fluxos de trabalho complexos com supervisão humana.
Investimento e novas estruturas académicas
Enquanto o Havai debate a integração curricular, a Universidade Estatal do Novo México (NMSU) avança com investimentos robustos e infraestruturas dedicadas. Na primavera de 2025, a universidade inaugurou o Instituto para a Prática Aplicada em IA e Aprendizagem Automática (“Machine Learning”), apoiada por um financiamento de 500 mil dólares do gabinete do presidente da NMSU e 2 milhões de dólares do Estado do Novo México.
A missão deste novo instituto é clara: reunir investigadores e educadores para criar soluções práticas para problemas reais. Enrico Pontelli, diretor do instituto, sublinha que o impacto da IA no mercado de trabalho é já profundo, prevendo-se que o mercado dos EUA cresça dez vezes nos próximos cinco anos, ultrapassando os 250 mil milhões de dólares até 2027.
Para responder a esta procura, a NMSU lançará, no outono de 2026, a primeira licenciatura em IA do estado, além de estar a liderar a criação de um mestrado inovador em inteligência artificial aplicada. “Isto é oportuno e extremamente necessário”, afirmou Valerio Ferme, presidente da NMSU, destacando a oportunidade de os estudantes participarem ativamente neste novo campo, desde que o uso da tecnologia seja responsável.
Da teoria à prática: impacto na comunidade
O instituto não se limita à teoria académica. Já demonstrou resultados práticos, como o apoio dado pelo Colégio de Ciências Agrícolas, que ajudou rancheiros a utilizar “vedações virtuais” para monitorizar e controlar o gado em grandes áreas, após incêndios recentes terem destruído as cercas físicas.
Além disso, a universidade tem mantido uma agenda intensa: desenvolveu cursos de educação geral para introduzir a IA a todos os alunos, lançou programas de subvenção interna para investigação e organizou encontros estratégicos com representantes políticos para discutir a integração da IA no ensino superior. Em janeiro de 2026, a NMSU co-liderará um encontro nacional focado nos desafios de promover uma educação de IA eficaz para todos.
A mensagem transversal a estas instituições é que a preparação para um mundo impulsionado pela IA não passa apenas pelo domínio técnico. Envolve, sobretudo, a capacidade de compreender como estas ferramentas podem resolver problemas em diversos domínios, garantindo sempre o seu uso ético e o impacto positivo nos indivíduos e na sociedade.
